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segunda-feira, maio 07, 2007A LUZ BATE E NÃO VOLTA
Poema de Fabrício Carpinejar
Não se entende uma cidade enxergando. Não se entende uma cidade ouvindo. Não se entende uma cidade decorando os números e as letras. Não se entende uma cidade atravessando sua cintura de filhos. Não se entende uma cidade dividindo suas estrelas entre o Norte e o Sul. Não se entende uma cidade, partindo ao meio os cabelos das estradas. Não se entende uma cidade dormindo nela, dormindo com ela. Não se entende uma cidade caminhando e anotando as bainhas de suas calças. Não se entende uma cidade com agulhas, moedas, lápis. Uma cidade não se entende se não estivermos com ela até depois da morte. Até enjoar da morte. Até que o fim altere o nascimento. Explicam-me Brasília, como se ela fosse uma máquina. Como se fosse o próprio mapa. Brasília não é para funcionar. É para delirar. Brasília não é uma cidade pronta, uma cidade armada. Lamento dizer: Brasília não acabou. Candangos, voltem às obras! Não é o desenho de um único homem, uma pista de pouso, as ruas largas., um emprego. Um busto, uma catedral, o planalto. Brasília não é caligrafia, por mais que se escreva entre as linhas. Brasília não é objetiva, concreta, por mais que se mostre inteira. Brasília não é a falta de umidade. Um aquário de ostras. Um quarto de solteiro. Os prédios não são boiadeiros. Os prédios são prédios somente, fingindo escavar o céu. Brasília não é dormitório. Não é para fazer a vida, ganhar dinheiro. É a cauda de um piano, um peixe andando a cavalo. Brasília é uma criança sentada na pedra, chateada porque a terra vermelha não brinca. A terra vermelha suja, mas não brinca. A terra vermelha logo vai com o vento caçar passarinho. Tente moldar a terra vermelha, ela escapa. Nem molhada, se acalma. A terra vermelha é uma árvore voando. Brasília é ruiva. Brasília tem sardas. Brasília tem medo de dormir sozinha. Candangos, não são vocês que devem se adaptar à cidade. Quem disse isso? Brasília não está concluída. É a cidade que precisa se adaptar a vocês. Brasília está cansada de ser real. Cansada de ser resumida, reduzida a um sopro de luz. Brasília está cansada de ser real. Não desistam de imaginá-la, candangos. |
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